Com a chegada do Imposto de Renda Pessoa Física Mínimo (IRPFM), prevista para 2026, investir deixou de ser apenas uma questão de retorno e risco isolados. Agora, as fontes de renda passam a ser interdependentes: o ganho de uma fonte pode gerar imposto mínimo, enquanto outra pode absorvê-lo.
O objetivo passa a ser claro:
minimizar o desperdício tributário
maximizar a renda líquida, respeitando o risco que o investidor está disposto a assumir.
O que muda com o Imposto de Renda Mínimo
Antes, cada investimento tinha "vida própria":
- Dividendos eram analisados de forma isolada
- Aluguel, salário, aplicações financeiras, tudo era visto separadamente
Com o IRPF mínimo, isso acaba.
Agora, as fontes de renda se conectam:
- Algumas geram imposto mínimo
- Outras absorvem esse imposto
- Outras são neutras, sem impacto direto no mínimo
Planejamento tributário deixa de ser detalhe e vira peça central na estratégia financeira.
O que é uma carteira balanceada no IRPF mínimo?
O professor Roy Martelanc propõe um conceito simples, mas poderoso:
> Uma carteira balanceada é aquela em que o imposto de renda mínimo gerado é igual ao imposto de renda mínimo absorvido.
Ou seja:
- Tudo o que é gerado por fontes geradoras é totalmente compensado por fontes absorvedoras.
- Não há desperdício de capacidade de absorção nem pagamento extra desnecessário.
Exemplo de carteira desbalanceada
O vídeo traz um investidor com renda na casa dos R$ 2 milhões por ano, com várias fontes de receita:
1. Dividendos de pessoa jurídica – R$ 720.000
- Não pagam IR tradicional
- Geram R$ 72.000 de imposto mínimo (10%)
- São fonte geradora de imposto mínimo
2. Salário (ou emprego público, hospital, universidade etc.) – R$ 200.000
- Alíquota efetiva de IR: 23,4%
- IR pago: cerca de R$ 47.000
- Imposto mínimo calculado: R$ 20.000
Como o IR tradicional (23,4%) é maior que o mínimo (10%), essa fonte:
absorve imposto mínimo
Gera um "saldo negativo" de quase R$ 27.000 (absorção)
3. Aluguel
Mesmo raciocínio do salário:
- Paga IR com alíquota acima do mínimo
- Também absorve imposto mínimo (no exemplo, cerca de R$ 8.000)
4. Investimentos tributados exclusivamente na fonte – retorno de R$ 150.000
- Aplicação de R$ 1 milhão
- Retorno: R$ 150.000
- IR exclusivo na fonte: 22,5%
- Imposto mínimo sobre essa renda: R$ 15.000
Como a alíquota real (22,5%) > 10%, essa fonte:
absorve imposto mínimo
Reduz a pressão gerada pelos dividendos
5. Investimentos isentos – R$ 5 milhões aplicados
- Geração de renda isenta
- Não paga IR
- Não gera imposto mínimo
- Não absorve imposto mínimo
- São fontes neutras na lógica do IRPFM.
6. Ações – R$ 1 milhão, com ganho de capital e dividendos
Ganho de capital – R$ 150.000
- IR de 22,5%
- Imposto mínimo sobre a base: 15.000
- O que passa disso é absorção (≈ R$ 7.500)
É fonte absorvedora
Dividendos de ações – R$ 80.000
- Isentos de IR tradicional
- Mas geram 10% de imposto mínimo (R$ 8.000)
São fonte geradora de imposto mínimo
Resultado da carteira desbalanceada
Somando tudo:
- Renda total: por volta de R$ 2 milhões
- IR tradicional recolhido: ≈ R$ 105 mil
- IR mínimo mensal pago: R$ 72 mil
- IR mínimo anual devido: R$ 136 mil (10% da base aplicável)
Como já foram pagos R$ 105 mil em IR tradicional, ainda há R$ 30 mil de imposto mínimo devido.
Por outro lado, como já foram pagos R$ 72 mil de IR mínimo mensal, surge uma restituição de cerca de R$ 42 mil.
Mesmo assim, há desperdício:
- Parte das fontes absorvedoras poderia ter sido melhor utilizada
- O custo tributário efetivo é maior do que poderia ser com uma carteira bem ajustada
Como o rebalanceamento elimina desperdício
No exemplo, o professor altera apenas um elemento da carteira:
**Sai uma parte dos títulos isentos
Entra uma parcela maior de investimentos tributados exclusivamente na fonte**
Por que isso faz diferença?
- Os investimentos isentos não geram nem absorvem imposto mínimo
- Já os tributados exclusivamente na fonte, com alíquota maior que 10%, absorvem o imposto mínimo gerado por outras fontes
Mesmo que os investimentos exclusivos paguem um pouco menos de juros (retorno ligeiramente menor), o efeito tributário compensa.
Com o novo desenho:
- As fontes absorvedoras passam a absorver todo o imposto mínimo gerado
- O saldo líquido de IRPFM passa a zero
- O investidor ainda recebe de volta todo o valor pago de imposto mínimo mensal (R$ 72 mil), porque não há mais imposto mínimo a ser devido
Resultado: O rendimento líquido anual fica R$ 30 mil maior do que seria sem o rebalanceamento.
Resumo dos três cenários
2025 (sem IRPF mínimo)
- Imposto normal
- Rendimento líquido próximo de R$ 1,9 milhão
Carteira desbalanceada com IRPF mínimo
- Gera imposto mínimo devido de R$ 30 mil
- Há restituição, mas também desperdício de absorção
- Custo tributário maior do que o necessário
Carteira rebalanceada
- Imposto mínimo devido: zero
- Restituição integral do mínimo mensal já pago
- Custo do IRPF mínimo: zero
- Rendimento líquido volta ao patamar que teria com a legislação antiga
E a única mudança foi trocar uma classe de ativos por outra, dentro da carteira.
Como pensar fontes geradoras, absorvedoras e neutras na prática
Uma forma simples de enxergar:
Fontes geradoras de imposto mínimo
Têm retorno 10% menor do que parece, porque geram imposto de 10% (ou da alíquota mínima aplicável ao contribuinte) sobre aquela renda.
Exemplos típicos:
- Dividendos de PJ
- Dividendos de ações
- Alguns rendimentos isentos
Fontes absorvedoras de imposto mínimo
Têm retorno real maior do que aparenta, porque pagam IR acima de 10% e parte desse imposto funciona como "escudo" que absorve o imposto mínimo gerado em outras fontes.
Retorno efetivo ≈ alíquota da fonte – alíquota mínima (10%)
Exemplos:
- Salário
- Aluguel
- Ganho de capital em bolsa
- Investimentos tributados exclusivamente na fonte
Mas atenção: Para a renda absorvedora funcionar, é preciso ter renda geradora. Se não houver renda geradora, não há o que absorver.
Fontes neutras
Nem geram nem absorvem imposto mínimo.
Exemplos:
- Títulos isentos em geral
- Algumas operações específicas fora da base do IRPFM
Tendem a perder atratividade relativa nesse novo ambiente.
Impactos no mercado financeiro
O IRPF mínimo também deve mexer com preço e demanda dos ativos:
Fontes absorvedoras devem ganhar demanda
- Maior procura → preço maior (PU maior) → retorno menor
- Para o emissor, isso é ótimo: custo de captação menor
Fontes geradoras tendem a perder demanda
- Menor procura → PU menor → retorno maior
- Para o emissor, aumenta o custo
Fontes neutras tendem a ser "empurradas" para baixo, como se fossem levemente geradoras
- Menor demanda, PU menor, retorno maior, porém com menos relevância que as demais
Em resumo: O IRPF mínimo muda não só o bolso do investidor, mas também o comportamento do mercado e a forma como produtos financeiros são estruturados e precificados.
Conclusão: rebalanceamento passa a ser rotina, não exceção
A partir de 2026:
- Investimentos deixam de ser independentes
- O investidor precisará substituir fontes geradoras por absorvedoras em muitos casos
- A carteira deverá ser revisada periodicamente, para evitar desperdícios
O foco passa a ser:
✅ máxima renda líquida
✅ equilíbrio entre geradores e absorvedores
✅ compatibilidade entre risco, retorno e tributação
Para quem trabalha com produtos financeiros, investimentos, crédito e risco, entender essa nova lógica tributária e de mercado deixa de ser diferencial e vira requisito.
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